Cerca de 18 milhões de brasileiras estão atualmente no climatério, o período que engloba a transição para a menopausa. Apesar de ser uma fase natural da vida, a menopausa ainda é cercada de tabus: 65% dos brasileiros consideram o assunto constrangedor. O resultado? Mulheres sofrem em silêncio, sem informação de qualidade sobre o que está acontecendo em seus corpos.
Neste guia, vamos desmistificar a menopausa com base nas diretrizes médicas brasileiras de 2024 e nas evidências científicas mais recentes. Você vai entender o que acontece com seus hormônios, quais exames monitorar e quais tratamentos realmente funcionam.
O Que Acontece Durante a Menopausa
A menopausa marca o fim permanente dos ciclos menstruais, confirmada após 12 meses consecutivos sem menstruação. Mas essa transição não acontece de uma hora para outra. Ela se divide em três fases distintas:
Perimenopausa é o período de transição que pode começar anos antes da última menstruação. Nessa fase, os ovários começam a produzir menos estrogênio e progesterona, causando ciclos irregulares e os primeiros sintomas. É comum que dure de 4 a 8 anos.
Menopausa é tecnicamente um momento específico: o dia que marca 12 meses desde a última menstruação. A idade média no Brasil é entre 48 e 52 anos.
Pós-menopausa são todos os anos que seguem. Os níveis hormonais permanecem baixos, e o corpo se adapta a essa nova realidade metabólica.

Durante essa transição, a idade biológica pode acelerar. Estudos mostram que as mudanças hormonais afetam múltiplos sistemas do corpo, desde o metabolismo até a saúde óssea. Por isso, monitorar biomarcadores nessa fase é especialmente importante.
Sintomas: Além das Ondas de Calor
Os sintomas da menopausa vão muito além dos conhecidos fogachos. Pesquisas recentes com mulheres brasileiras revelam um quadro preocupante de impacto na qualidade de vida.
Sintomas Físicos
Os sintomas vasomotores são os mais reconhecidos: ondas de calor súbitas, suores noturnos e palpitações. Eles afetam a maioria das mulheres e podem persistir por anos. Mas existem outros igualmente relevantes:
- Ressecamento vaginal e desconforto nas relações
- Dores articulares e musculares
- Alterações de peso, especialmente acúmulo na região abdominal
- Mudanças na pele e cabelos
- Distúrbios do sono, mesmo sem suores noturnos
Sintomas Mentais e Emocionais
Os dados brasileiros são alarmantes: 79% das mulheres experimentam sentimentos psicológicos negativos durante a menopausa, comparado a 66% globalmente. Mais preocupante ainda, 82% relatam sintomas de depressão e ansiedade.
A chamada névoa mental também é comum: dificuldade de concentração, lapsos de memória e sensação de lentidão cognitiva. Esses sintomas têm base biológica e estão ligados às flutuações hormonais que afetam neurotransmissores como a serotonina.
Impacto na Vida Profissional
Uma pesquisa recente mostrou que 47% das brasileiras sofreram impacto negativo no trabalho por causa da menopausa. Os números detalham:
- 26% relatam redução da produtividade devido a sintomas como fadiga, dificuldade de concentração e ondas de calor durante reuniões
- 17% têm receio de compartilhar sua situação com colegas por medo de julgamento ou discriminação
- 9% sofreram discriminação explícita relacionada à menopausa no ambiente de trabalho
- Apenas 29% sentem abertura para discutir o assunto com seus gestores ou equipe de RH
Esses dados mostram por que é urgente falar abertamente sobre menopausa e buscar tratamento adequado.
Exames que Revelam a Transição Hormonal
O diagnóstico da menopausa é principalmente clínico: a ausência de menstruação por 12 meses em mulher na faixa etária esperada geralmente é suficiente. Porém, exames laboratoriais ajudam a confirmar a transição e monitorar riscos associados.
Hormônios Reprodutivos
O FSH (Hormônio Folículo-Estimulante) é o marcador mais utilizado. Quando os ovários param de funcionar adequadamente, o cérebro aumenta a produção de FSH na tentativa de estimulá-los. Valores consistentemente elevados indicam menopausa.
O estradiol (principal forma de estrogênio) complementa a avaliação. Níveis baixos confirmam a diminuição da função ovariana. Importante: uma única dosagem pode não ser suficiente durante a perimenopausa, já que os valores flutuam bastante nessa fase.
Outros Exames Relevantes
A função tireoidiana (TSH) merece atenção especial. Distúrbios da tireoide são mais comuns durante o climatério e podem mimetizar ou agravar sintomas da menopausa.
O perfil lipídico tende a mudar significativamente: aumento de LDL (colesterol ruim) e triglicerídeos, com diminuição do HDL (colesterol bom). A queda do estrogênio é a principal responsável por essas alterações.
Para entender melhor esses marcadores, confira nosso guia sobre como interpretar seus exames de sangue.
A densitometria óssea é recomendada para mulheres na pós-menopausa, especialmente a partir dos 65 anos ou antes se houver fatores de risco. A perda óssea acelera nos primeiros anos após a menopausa.
Riscos à Saúde: Coração e Ossos
A menopausa não é apenas um período de sintomas desconfortáveis. Ela marca uma mudança significativa no perfil de risco para doenças crônicas.
Saúde Cardiovascular
Antes da menopausa, as mulheres têm menor risco cardiovascular que os homens. Após, essa proteção diminui substancialmente. O estrogênio tem efeitos protetores sobre os vasos sanguíneos e o metabolismo lipídico.
As alterações incluem aumento de marcadores de inflamação silenciosa, disfunção vascular e síndrome metabólica. A Diretriz Brasileira sobre Saúde Cardiovascular no Climatério (2024) enfatiza a importância do controle de fatores de risco modificáveis nessa fase.
Saúde Óssea
A osteoporose afeta aproximadamente 10 milhões de pessoas no Brasil, mas apenas 20% sabem que têm a doença. A perda óssea acelera dramaticamente nos primeiros anos após a menopausa: cerca de 2,5% por ano na coluna lombar.
Os biomarcadores de longevidade como vitamina D e marcadores inflamatórios também são relevantes para avaliar a saúde óssea e cardiovascular durante o climatério.
Tratamentos Baseados em Evidência
O Consenso Brasileiro SOBRAC/FEBRASGO foi atualizado em 2024 após seis anos, trazendo recomendações baseadas nas evidências mais recentes.
Terapia Hormonal da Menopausa (THM)
A THM é considerada o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores. A diretriz brasileira traz uma recomendação forte (com alto nível de certeza) a favor da THM para mulheres sintomáticas sem contraindicações.
O conceito de janela de oportunidade é central: iniciar nos primeiros 10 anos após a menopausa ou antes dos 60 anos oferece o melhor perfil de risco-benefício. Nesse período, os benefícios cardiovasculares tendem a superar os riscos.
Princípios importantes da THM incluem usar a menor dose efetiva e sempre adicionar progesterona quando o útero está preservado (estrogênio isolado aumenta o risco de hiperplasia endometrial).
Opções Não Hormonais
Para mulheres que não podem ou não desejam usar hormônios, existem alternativas com evidência científica:
Fezolinetante é um bloqueador não hormonal aprovado pelo FDA em 2023. Atua diretamente no centro termorregulador do cérebro e reduz significativamente a frequência e intensidade das ondas de calor.
Antidepressivos como paroxetina, venlafaxina e escitalopram podem reduzir até 70% dos sintomas vasomotores, além de beneficiar o humor.
Gabapentina é uma opção especialmente útil para mulheres com distúrbios do sono importantes, com melhora em até 60% dos casos.
O Que Evitar
As sociedades médicas brasileiras não recomendam implantes hormonais manipulados, hormônios bioidênticos manipulados nem os chamados protocolos de modulação hormonal. O motivo é a falta de evidência científica de eficácia e segurança para essas abordagens.
Estilo de Vida: Mudanças que Funcionam
Mudanças no estilo de vida são fundamentais e complementam qualquer tratamento medicamentoso.
Alimentação
Priorize a ingestão adequada de cálcio (1000-1200mg/dia) e vitamina D. Fontes alimentares incluem laticínios, vegetais verde-escuros e peixes gordurosos. A suplementação pode ser necessária quando a alimentação não atinge as metas.
Reduza álcool e cafeína, que podem piorar os fogachos. Mantenha uma alimentação anti-inflamatória, rica em vegetais, frutas, grãos integrais e gorduras saudáveis.
Exercício Físico
A atividade física regular ajuda em múltiplas frentes: fortalece ossos e músculos, melhora o perfil lipídico e glicêmico, reduz sintomas de depressão e ansiedade, auxilia no controle do peso e pode diminuir a intensidade dos fogachos.
Combine exercícios aeróbicos com treino de força. O impacto moderado (caminhada, dança, subir escadas) é benéfico para a saúde óssea.
Sono e Estresse
Mantenha uma rotina regular de sono. Ambiente fresco ajuda a minimizar suores noturnos. Técnicas de gerenciamento de estresse como meditação e yoga têm evidência de benefício para sintomas da menopausa.
Perguntas Frequentes
A terapia hormonal causa câncer?
A relação entre THM e câncer de mama é complexa e depende do tipo de terapia, duração e fatores individuais. As evidências atuais mostram que, para a maioria das mulheres sintomáticas dentro da janela de oportunidade, os benefícios superam os riscos. A decisão deve ser individualizada com seu médico.
Posso engravidar durante a perimenopausa?
Sim. Enquanto houver ciclos menstruais, mesmo irregulares, há possibilidade de ovulação e gravidez. A contracepção deve ser mantida até a confirmação da menopausa.
Quanto tempo duram os sintomas?
Varia muito entre as mulheres. Os sintomas vasomotores podem durar de alguns meses a mais de uma década. Em média, persistem por 4-8 anos. O tratamento adequado pode aliviar significativamente esse período.
E se a menopausa vier antes dos 40 anos?
A menopausa antes dos 40 anos é chamada insuficiência ovariana prematura ou menopausa precoce. Afeta aproximadamente 1% das mulheres e tem implicações importantes para a saúde óssea, cardiovascular e fertilidade. Se você suspeita que está nessa situação, procure avaliação médica especializada.
Próximos Passos
A menopausa é uma transição natural, não uma doença. Com informação de qualidade e acompanhamento adequado, é possível atravessar essa fase mantendo sua saúde e qualidade de vida.
Se você está na perimenopausa ou menopausa, considere:
- Conversar abertamente com seu médico sobre seus sintomas
- Monitorar seus biomarcadores regularmente
- Descobrir sua idade biológica para entender como seu corpo está envelhecendo
A Olivee pode ajudar você a acompanhar seus exames e entender como a transição hormonal está afetando seu organismo.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação médica profissional. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
Fontes:
