Cerca de 57% dos homens brasileiros desconhecem a andropausa, a queda natural de testosterona que acontece com a idade. Diferente da menopausa feminina, que ocorre de forma abrupta, a andropausa é gradual e silenciosa, fazendo com que muitos homens atribuam os sintomas ao estresse ou ao envelhecimento normal.
Neste guia sobre andropausa, vamos explicar o que a ciência chama de DAEM (Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino), quais exames monitorar e o que você pode fazer para otimizar sua saúde hormonal.
O Que é DAEM (Andropausa)
Embora o termo "andropausa" seja amplamente usado, ele não é tecnicamente preciso. Diferente da menopausa, em que a mulher para de produzir hormônios de forma relativamente abrupta, o homem nunca para completamente de produzir testosterona. Na andropausa, a queda é gradual: cerca de 1 a 2% ao ano a partir dos 30-40 anos.

Por isso, as sociedades médicas preferem o termo DAEM (Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino) ou Hipogonadismo Masculino Tardio. Esses nomes refletem melhor a realidade: uma condição clínica que combina níveis baixos de testosterona com sintomas específicos.
Prevalência no Brasil
Os números mostram que essa é uma condição comum, especialmente após os 40 anos:
- 5 a 7% dos homens após os 40 anos desenvolvem DAEM com sintomas significativos
- 20 a 30% dos homens após os 60 anos apresentam a condição
- A DAEM está associada a aumento do risco de mortalidade, tornando o diagnóstico precoce importante
A boa notícia é que, diferente de outras condições do envelhecimento, a andropausa pode ser tratada e, em muitos casos, prevenida ou atenuada com mudanças no estilo de vida.
Sintomas: O Que Observar
Os sintomas da andropausa afetam múltiplos aspectos da saúde. Muitos homens convivem com eles por anos sem perceber a conexão com os hormônios.

Sintomas Físicos
A fadiga persistente é uma das queixas mais comuns. Homens descrevem uma sensação de cansaço que não melhora com descanso, diferente do cansaço normal após esforço físico.
Outras manifestações físicas incluem perda progressiva de massa muscular mesmo mantendo exercícios, aumento de gordura especialmente na região abdominal, redução de força e resistência física, e diminuição de pelos corporais.
Sintomas Sexuais
A esfera sexual costuma ser o que mais chama atenção. A diminuição da libido (desejo) é frequente, assim como dificuldade de manter ereções e redução das ereções matinais espontâneas.
Sintomas Cognitivos e Emocionais
Irritabilidade aumentada, oscilações de humor e sintomas depressivos são comuns. Muitos homens relatam também dificuldade de concentração e lapsos de memória, o que afeta o desempenho no trabalho e relacionamentos.
O Questionário ADAM
Existe um questionário simples chamado ADAM (Androgen Deficiency in Aging Males) que ajuda a identificar possíveis casos. Ele tem alta sensibilidade para detectar a condição, embora precise ser confirmado por exames laboratoriais.
Se você se identifica com vários desses sintomas de andropausa, especialmente os relacionados à esfera sexual e à fadiga, vale conversar com um médico sobre investigação hormonal.
Exames que Revelam a Transição Hormonal
O diagnóstico de andropausa (DAEM) requer tanto sintomas clínicos quanto confirmação laboratorial. Não basta ter testosterona baixa sem sintomas, nem ter sintomas com testosterona normal.
Testosterona Total e Livre
A testosterona total é o exame inicial. A coleta deve ser feita pela manhã, idealmente entre 7h e 11h, quando os níveis são mais altos. Pelo menos duas dosagens são necessárias para confirmar o diagnóstico, já que há variação natural entre dias.
A testosterona livre representa apenas 1-3% do total, mas é a fração biologicamente ativa. Ela se torna especialmente importante em situações onde a testosterona total está em valores limítrofes.
Para entender melhor esses e outros marcadores, consulte nosso guia sobre como interpretar seus exames de sangue.
SHBG: A Proteína que "Prende" a Testosterona
A SHBG (Globulina Ligadora de Hormônios Sexuais) transporta a testosterona no sangue. Quanto maior a SHBG, menor a quantidade de testosterona livre disponível para o corpo usar.
A SHBG tende a aumentar com a idade, o que significa que mesmo com testosterona total aparentemente adequada, a fração livre pode estar baixa. Por isso, em homens acima dos 50 anos, avaliar apenas a testosterona total pode não ser suficiente.
LH e FSH: Onde Está o Problema?
Esses hormônios produzidos pelo cérebro estimulam os testículos a produzir testosterona. Sua dosagem ajuda a identificar a causa do problema:
- LH e FSH elevados com testosterona baixa sugerem que o problema está nos testículos (hipogonadismo primário)
- LH e FSH baixos ou normais com testosterona baixa sugerem problema no cérebro (hipogonadismo secundário)
Essa diferenciação é importante porque o tratamento pode variar conforme a causa.
PSA: Segurança Antes do Tratamento
O PSA (Antígeno Prostático Específico) não é um hormônio, mas é obrigatório antes de iniciar qualquer tratamento com testosterona. Ele avalia a saúde da próstata, já que a reposição hormonal é contraindicada em casos de câncer de próstata ativo.
DHEA-S: Marcador de Envelhecimento
O DHEA-S é um precursor da testosterona que atinge seu pico aos 20 anos e declina progressivamente. Aos 40 anos, a produção já caiu para cerca de 50%. Ele serve como marcador complementar do envelhecimento hormonal e está entre os biomarcadores de longevidade que podem ser monitorados.
Riscos à Saúde: Metabolismo e Coração
A andropausa não causa apenas sintomas incômodos. A deficiência de testosterona está associada a riscos importantes para a saúde a longo prazo.
Síndrome Metabólica
A testosterona baixa aumenta o risco de desenvolver resistência à insulina, acúmulo de gordura visceral (a gordura mais perigosa, ao redor dos órgãos), alterações no perfil lipídico e diabetes tipo 2.
Essas condições se retroalimentam: a obesidade piora a produção de testosterona (o tecido gorduroso converte testosterona em estrogênio), que por sua vez favorece mais acúmulo de gordura.
Risco Cardiovascular
A relação entre testosterona e coração é complexa. Por um lado, a deficiência hormonal está associada a maior risco cardiovascular. Por outro, a reposição inadequada também pode trazer riscos.
O que sabemos é que normalizar os níveis de testosterona em homens com deficiência documentada parece ser protetor, desde que feito com acompanhamento adequado.
Saúde Óssea
Homens também desenvolvem osteoporose, especialmente quando há deficiência de testosterona. A perda óssea é mais lenta que nas mulheres pós-menopausa, mas igualmente relevante para o risco de fraturas.
Sarcopenia
A perda de massa e força muscular associada à idade se acelera com baixa testosterona. Isso afeta não apenas a aparência, mas a capacidade funcional e independência no envelhecimento.
A inflamação silenciosa também pode estar elevada em homens com deficiência hormonal, contribuindo para esses riscos.
Tratamentos Baseados em Evidência
O tratamento da andropausa envolve primeiro confirmar o diagnóstico e excluir outras causas. As diretrizes brasileiras e internacionais são claras: não se trata qualquer homem com sintomas vagos e testosterona no limite inferior do normal.
Quando a TRT é Indicada
A Terapia de Reposição de Testosterona (TRT) está indicada quando há sintomas clínicos característicos combinados com confirmação laboratorial em pelo menos duas dosagens matinais.
Importante: o Conselho Federal de Medicina proíbe o uso de testosterona para fins estéticos, ganho de massa muscular recreativo ou melhora de desempenho esportivo. A TRT é um tratamento médico para uma condição específica.
Formulações Disponíveis
Existem diferentes formas de administração, cada uma com vantagens e desvantagens:
Gel transdérmico é frequentemente preferido no início do tratamento, especialmente em pacientes com fatores de risco. Causa menos picos hormonais e permite ajuste de dose mais fácil.
Injetáveis de média duração (semanal/quinzenal) ou longa duração (trimestral) são opções para quem prefere menor frequência de administração.
Implantes subcutâneos liberam hormônio de forma contínua por 3-6 meses.
Contraindicações
A TRT não deve ser iniciada em casos de câncer de próstata ativo, câncer de mama masculino, hematócrito muito elevado, insuficiência cardíaca grave descompensada e apneia do sono não tratada.
O Debate Cardiovascular
A segurança cardiovascular da TRT continua sendo tema de discussão científica. Estudos recentes sugerem que, quando corretamente indicada e monitorada, a TRT pode ser oferecida sem aumento significativo dos riscos cardiovasculares.
O consenso atual é que a normalização dos níveis hormonais em homens verdadeiramente deficientes parece trazer mais benefícios que riscos, desde que haja acompanhamento rigoroso.
Monitoramento Durante o Tratamento
Quem faz TRT precisa de acompanhamento regular com monitoramento de testosterona para verificar se os níveis estão adequados, hematócrito e hemoglobina (a testosterona estimula a produção de glóbulos vermelhos), PSA e exame prostático, perfil lipídico e função hepática.
O objetivo é manter a testosterona em níveis fisiológicos, não suprafisiológicos.
Otimização Natural: Antes da TRT
As diretrizes mais recentes para andropausa, incluindo as da European Association of Urology 2025, recomendam otimizar o estilo de vida antes de considerar a reposição hormonal. Em muitos casos, essas mudanças podem melhorar significativamente os níveis de testosterona sem necessidade de medicação.
Exercício de Força
O treinamento de resistência (musculação) é uma das intervenções mais eficazes para estimular a produção natural de testosterona. Exercícios compostos como agachamento, levantamento terra e supino recrutam grandes grupos musculares e têm maior impacto hormonal.
A frequência recomendada é de 3 a 5 vezes por semana, combinando treino de força com atividade aeróbica moderada.
Sono de Qualidade
A maior parte da síntese de testosterona acontece durante o sono profundo. Estudos mostram que dormir menos de 5 horas por noite pode reduzir os níveis em 10 a 15%.
Priorize 7 a 8 horas de sono por noite, mantenha horários regulares e evite telas antes de dormir. A qualidade do sono é tão importante quanto a quantidade.
Nutrição Otimizada
Algumas estratégias nutricionais apoiam a produção hormonal. Gorduras saudáveis são essenciais para a síntese de hormônios esteroides, então inclua azeite, abacate, oleaginosas e peixes gordurosos na alimentação. O zinco é indispensável para a produção de testosterona, com boas fontes incluindo carnes, frutos do mar (especialmente ostras) e sementes. O magnésio atua como cofator em múltiplas vias hormonais, sendo encontrado em vegetais verde-escuros, nozes e grãos integrais. A vitamina D em níveis adequados também está associada a melhor função hormonal.
Por outro lado, evite açúcar refinado, alimentos ultraprocessados e excesso de álcool, todos associados a redução da testosterona.
Gerenciamento de Estresse
O cortisol (hormônio do estresse) tem efeito antagônico à testosterona. Quando o cortisol está cronicamente elevado, a produção de testosterona diminui.
Técnicas como meditação, exercícios de respiração e atividades relaxantes podem ajudar a reduzir o cortisol e indiretamente favorecer os níveis hormonais.
Perda de Peso
A obesidade é um dos principais fatores modificáveis. O tecido adiposo contém uma enzima (aromatase) que converte testosterona em estrogênio. Perder 5 a 10% do peso corporal pode melhorar significativamente os níveis hormonais.
Perguntas Frequentes
A TRT é para sempre?
Na maioria dos casos, sim. Uma vez iniciada a reposição, os testículos tendem a reduzir sua produção própria. Por isso, a decisão de começar deve ser bem ponderada. Em alguns casos de hipogonadismo secundário, existem tratamentos alternativos que podem preservar a produção natural.
A partir de qual idade devo monitorar a testosterona?
A dosagem de testosterona não faz parte do check-up de rotina. Ela deve ser solicitada quando há sintomas sugestivos, independente da idade. Se você tem sintomas compatíveis, especialmente fadiga persistente, alterações de libido e humor, vale conversar com seu médico.
TRT causa problemas cardíacos?
A relação é complexa. A deficiência de testosterona está associada a maior risco cardiovascular. A reposição adequada, mantendo níveis fisiológicos, parece ser segura na maioria dos pacientes. O risco aumenta com doses supraterapêuticas e falta de monitoramento.
Posso ter filhos durante a TRT?
A TRT pode reduzir ou interromper a produção de espermatozoides. Se você planeja ter filhos, isso deve ser discutido antes de iniciar o tratamento. Existem alternativas que preservam a fertilidade.
Suplementos podem substituir a TRT?
Suplementos como vitamina D, zinco e ashwagandha podem otimizar a produção natural quando há deficiência, mas não substituem a TRT em casos de deficiência verdadeira. A automedicação não é recomendada. Converse sempre com um médico antes de iniciar qualquer suplementação.
Próximos Passos
A saúde hormonal masculina é fundamental para a qualidade de vida, mas ainda é pouco discutida. Se você se identificou com os sintomas descritos neste artigo, o primeiro passo é procurar um endocrinologista ou urologista para avaliação adequada.
Lembre-se: muitos casos podem ser melhorados apenas com mudanças no estilo de vida. A idade biológica pode ser mais reveladora do seu estado de saúde do que a idade cronológica.
Quer entender como seus hormônios e outros biomarcadores estão afetando seu envelhecimento? Descubra sua idade biológica e receba uma análise personalizada dos seus exames.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação médica profissional. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
Fontes:
