A cada 90 segundos, um brasileiro morre de doença cardiovascular. São mais de 400 mil vidas perdidas por ano — o equivalente à população de uma cidade como Florianópolis. O dado mais perturbador? 80% dessas mortes poderiam ser evitadas com prevenção adequada.
Mesmo assim, 23% dos brasileiros nunca foram a um cardiologista. E entre os que vão, poucos conhecem um exame que a nova diretriz brasileira de 2025 tornou praticamente obrigatório: a Lipoproteína(a), ou simplesmente Lp(a).
Se você nunca ouviu falar desse biomarcador, não está sozinho. Mas depois de ler este artigo, vai entender por que ele pode ser a peça que falta na sua avaliação cardiovascular — e o que fazer a respeito.
Por Que Tantos Brasileiros Morrem do Coração?
As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil há décadas. Os fatores de risco tradicionais — hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo e colesterol alto — são amplamente conhecidos. Então por que continuamos perdendo tantas vidas?
Parte da resposta está na avaliação incompleta do risco cardiovascular. Durante muito tempo, os exames se concentraram apenas no perfil lipídico básico: colesterol total, LDL (o "colesterol ruim"), HDL (o "bom") e triglicerídeos. Embora importantes, esses marcadores não contam a história toda.
A inflamação silenciosa, por exemplo, é um fator de risco independente que muitos check-ups ignoram. Pessoas com colesterol aparentemente normal podem ter processos inflamatórios crônicos que aceleram a formação de placas nas artérias.
Outra lacuna crítica está nos biomarcadores genéticos — características herdadas que aumentam o risco cardiovascular independentemente do estilo de vida. É aqui que a Lp(a) entra em cena.
O Que é a Lipoproteína(a)?
A Lipoproteína(a) — frequentemente abreviada como Lp(a) — é uma partícula presente no sangue que se assemelha ao LDL, mas com uma diferença crucial: ela carrega uma proteína adicional chamada apolipoproteína(a), ou Apo(a). Essa "cauda" extra torna a Lp(a) particularmente perigosa para suas artérias.
A descoberta da Lp(a) data dos anos 1960, mas somente nas últimas décadas a comunidade médica compreendeu seu papel no risco cardiovascular. Hoje, a Lp(a) é reconhecida como um dos fatores de risco mais importantes — e mais subdiagnosticados — para doenças do coração.
Enquanto o LDL "comum" pode ser modificado por dieta, exercício e medicamentos, a Lp(a) é quase inteiramente determinada pela genética. Seus níveis são definidos ao nascimento e permanecem relativamente estáveis ao longo da vida. Isso significa que, se você tem Lp(a) elevada aos 30 anos, provavelmente terá aos 60 também — a menos que surjam novas terapias específicas.

Por que a Lp(a) é tão problemática?
A Lp(a) possui três características que a tornam um fator de risco cardiovascular potente:
Efeito pró-aterogênico: Assim como o LDL, a Lp(a) pode se depositar nas paredes das artérias, contribuindo para a formação de placas de gordura. Mas por suas características estruturais, ela penetra mais facilmente no endotélio (revestimento interno das artérias).
Efeito pró-inflamatório: A Lp(a) ativa processos inflamatórios na parede arterial, acelerando a progressão da aterosclerose. Essa inflamação é o combustível que transforma uma placa estável em uma placa vulnerável a ruptura.
Efeito pró-trombótico: A estrutura da Apo(a) interfere nos mecanismos naturais de dissolução de coágulos. Isso significa que, quando uma placa se rompe, o corpo tem mais dificuldade em impedir a formação de um coágulo — o evento que causa infartos e AVCs.
A Nova Diretriz Brasileira 2025: Uma Mudança de Paradigma
Em 2025, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) atualizou suas diretrizes de dislipidemias com uma recomendação clara: todo adulto deve dosar a Lp(a) ao menos uma vez na vida.
Essa recomendação reflete o reconhecimento de que a Lp(a) é um fator de risco independente e que sua avaliação pode mudar completamente a estratégia de prevenção de um paciente.
O que mais mudou?
A diretriz também trouxe a calculadora PREVENT, desenvolvida pela American Heart Association, para substituir os escores de risco antigos. Essa ferramenta é mais precisa e incorpora fatores como função renal e IMC na avaliação.
Outra novidade é a criação de uma quinta categoria de risco cardiovascular: o risco extremo. Pacientes que já tiveram múltiplos eventos cardiovasculares ou que combinam um evento com duas condições de alto risco agora recebem atenção diferenciada.
Para quem tem síndrome metabólica, a nova diretriz reforça a importância de uma avaliação mais completa, já que esses pacientes frequentemente têm perfis de risco subestimados pelo LDL isoladamente.
Lp(a) Alta: O Que Significa Para Você?
Valores de Lp(a) acima de 50 mg/dL (ou 125 nmol/L) colocam você em uma categoria de risco aumentado. Quando esse valor ultrapassa 75 nmol/L, a atenção deve ser ainda maior.

Como a Lp(a) é geneticamente determinada, níveis elevados tendem a aparecer em famílias. Se você descobrir que tem Lp(a) alta, vale a pena recomendar o exame para pais, irmãos e filhos.
O problema da discordância
Um aspecto frequentemente negligenciado é a discordância entre LDL e risco real. Em cerca de 20% dos pacientes com diabetes, obesidade ou síndrome metabólica, o LDL pode parecer "aceitável" enquanto o risco verdadeiro está muito maior.
Isso acontece porque esses pacientes tendem a ter partículas de LDL menores e mais densas (mais aterogênicas) e níveis elevados de Lp(a) — problemas que o exame tradicional de LDL não captura. É por isso que marcadores como ApoB e Lp(a) estão ganhando espaço nas avaliações modernas.
Para uma visão completa dos biomarcadores de longevidade, considere também avaliar outros indicadores além do perfil lipídico tradicional.
Além do Lp(a): O Painel Cardiovascular Completo
Embora a Lp(a) seja o protagonista deste artigo, ela funciona melhor quando avaliada em conjunto com outros biomarcadores:
Apolipoproteína B (ApoB): Presente em todas as partículas aterogênicas (LDL, VLDL, Lp(a)), a ApoB fornece uma contagem direta de "quantas partículas problemáticas" você tem circulando. É considerada mais precisa que o LDL para predizer risco.
PCR ultrassensível (PCR-us): Marcador de inflamação sistêmica. Quando elevada sem infecção aguda, indica inflamação crônica de baixo grau — um acelerador da aterosclerose.
Homocisteína: Aminoácido que, em excesso, promove estresse oxidativo e disfunção do endotélio. Pode ser controlada com suplementação de vitaminas do complexo B.
O perfil lipídico tradicional continua relevante, mas como parte de uma avaliação mais ampla. Assim como os tratamentos com GLP-1 mostram proteção cardiovascular através de múltiplos mecanismos, a prevenção efetiva requer uma visão multifatorial.
O exercício físico regular também impacta positivamente vários desses marcadores simultaneamente, reforçando a importância de uma abordagem integrada.
O Que Fazer Se Sua Lp(a) For Alta?
Aqui está a parte frustrante: ainda não existe um medicamento específico para reduzir a Lp(a). Diferente do LDL, que pode ser dramaticamente reduzido com estatinas e outros fármacos, a Lp(a) resiste à maioria das intervenções farmacológicas disponíveis hoje.
No entanto, isso não significa que você está sem opções. A estratégia atual para quem tem Lp(a) elevada é o controle agressivo de todos os outros fatores de risco modificáveis:
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Redução máxima do LDL: Com Lp(a) alta, as metas de LDL devem ser mais rigorosas. Estatinas, ezetimiba e inibidores de PCSK9 entram em cena quando necessário.
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Controle da pressão arterial: Manter pressão abaixo de 120/80 mmHg ganha ainda mais importância.
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Manejo da glicemia: A resistência à insulina e o diabetes amplificam o risco cardiovascular em quem já tem Lp(a) elevada.
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Estilo de vida otimizado: Exercício aeróbico regular, dieta mediterrânea ou similar, sono de qualidade e gestão do estresse formam a base da prevenção.
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Aspirina em casos selecionados: Para alguns pacientes de alto risco, a aspirina em baixa dose pode ser considerada após avaliação médica individualizada.
A boa notícia é que novos medicamentos específicos para Lp(a) estão em fase avançada de desenvolvimento. Nos próximos anos, teremos opções terapêuticas diretas para esse marcador.
Como a Olivee Pode Ajudar
A Olivee oferece uma análise personalizada dos seus biomarcadores que vai além do check-up tradicional. Nossa plataforma interpreta seus resultados considerando seu perfil individual — idade, sexo, histórico familiar e objetivos de saúde.
Para quem quer entender seu risco cardiovascular de forma completa, oferecemos:
- Interpretação contextualizada de exames como Lp(a), ApoB e PCR-us
- Acompanhamento longitudinal para monitorar a evolução dos marcadores ao longo do tempo
- Recomendações personalizadas baseadas no seu perfil de risco específico
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Conclusão: O Exame que Pode Mudar Sua História
A Lp(a) representa uma nova fronteira na prevenção cardiovascular. Diferente de outros fatores de risco como colesterol LDL ou pressão arterial, a Lp(a) é determinada pelos seus genes e permanece oculta para quem nunca fez o exame específico.
Muitas pessoas descobrem que têm Lp(a) elevada somente após um evento cardiovascular — um infarto ou AVC que poderia ter sido prevenido com uma estratégia mais agressiva. A dosagem precoce desse biomarcador permite antecipar medidas preventivas.
A recomendação da Sociedade Brasileira de Cardiologia na nova diretriz de 2025 é clara: dose sua Lp(a) pelo menos uma vez na vida. Se o resultado vier elevado, você ganha a oportunidade de agir preventivamente sobre todos os outros fatores modificáveis. Se vier normal, você elimina uma preocupação importante.
O exame de Lp(a) está disponível na maioria dos laboratórios e não requer preparo especial. Na próxima consulta com seu médico, pergunte sobre a Lp(a). Pode ser a peça que falta para completar sua avaliação cardiovascular — e potencialmente mudar sua história.
